por Neomil Macedo, UEPG Notícias, 08/03/2013
Como será o comportamento do clima no Estado do Paraná nos próximos cem
anos? A resposta foi buscada por um projeto de pesquisa que desenvolveu um
sistema capaz de simular os impactos das mudanças climáticas globais sobre os
setores agropecuário, florestal e energético nas próximas décadas: em 2040,
2070 e 2100. Com patrocínio da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), o
trabalho é resultado da cooperação entre instituições de pesquisa tecnológica
atuantes no Paraná reunidas em uma rede, incluindo Simepar, Instituto
Agronômico do Paraná (Iapar), Fundação ABC, Universidade Estadual de Ponta
Grossa (UEPG), Universidade Federal do Paraná (UFPR), Embrapa Florestas e
Embrapa Trigo.
Figura 01- Distribuição espacial dos dados de precipitação simulados para os períodos de2010 a 2039, 2040 a 2069, e 2070 a 2099 respectivamente
Um software desenvolvido pelo Departamento de Matemática e Estatística
da UEPG utiliza a base de dados climáticos coletados por estações
meteorológicas do Simepar e do Iapar entre 1980 e 2009 considerando dois
cenários propostos pelo Painel Internacional de Mudanças Climáticas (IPCC):
aumento da temperatura de 2 graus e de 4 graus. Para cada grau a mais na
temperatura global projeta-se aumento de 10% na ocorrência de chuvas.
"Aplicando modelos matemáticos, foram obtidos resultados para 28
localidades do Paraná, o que pode orientar o planejamento estratégico de
plantio, cultivo ou substituição de culturas agrícolas, ações nas áreas
energética e florestal", explica o pesquisador Jorim Souza das Virgens
Filho, professor da UEPG que desenvolveu o programa como tese de doutorado em
energia na agricultura sobre simulação computacional na área climática. Os
estudos permitem a adoção de medidas voltadas às áreas urbanas – como
construção de redes de drenagem para enchentes. No setor energético, servem de
base para ações como reforço de barragens para contenção de águas e uso do
potencial eólico.
Responsável pela análise e interpretação dos dados meteorológicos e
climatológicos simulados, o Instituto Tecnológico Simepar prevê as tendências
de alterações nas séries de dados das seguintes variáveis: temperatura, umidade
relativa do ar, precipitação, radiação solar e vento. A duração e a frequência
dos "veranicos" e a probabilidade de eventos climáticos extremos
também são estudadas. O diretor Eduardo Alvim Leite realça "a importância
do esforço cooperativo entre instituições de pesquisa tecnológica paranaenses
para viabilizar esse trabalho pioneiro de regionalização dos estudos de impacto
das mudanças climáticas potenciais".
Incêndios florestais
Influenciados pelo clima, o crescimento e a conservação de árvores são
objeto de preocupação de entidades dedicadas aos estudos florestais. Segundo os
pesquisadores do Departamento de Ciências Florestais da Universidade Federal do
Paraná (UFPR), professores Antonio Carlos Batista e Alexandre França Tetto, a
elevação do aquecimento médio da temperatura e a redução proporcional de chuvas
aumentam os riscos de ocorrência de incêndios florestais: "De posse desses
dados, os órgãos competentes poderão atuar sobre as causas e consequências para
impedir que incêndios se alastrem e devastem as poucas áreas de vegetação
natural do Estado, evitando que se tornem eventos de maiores proporções".
Uma das providências que podem ser adotadas para reduzir os riscos e os danos é
o manejo do fogo. "Quando ocorre um incêndio florestal, a detecção e a
mobilização devem ser rápidas e ágeis para combatê-lo com eficiência",
observam. O pesquisador do Simepar, Flavio Deppe, acrescenta que o estudo
permitiu a geração de mapas de Índice de Perigo de Incêndios Florestais, os
quais poderão contribuir para o planejamento regional de investimentos
florestais.
Agropecuária
A tendência de elevação das temperaturas mínimas mais altas indica que
as noites serão mais quentes. "Esse aumento da temperatura noturna pode
acarretar prejuízos na fotossíntese, processo pelo qual as plantas respiram
queimando a energia armazenada durante o dia", explica o pesquisador de
agrometeorologia do Iapar, Paulo Henrique Caramori. Segundo ele, algumas
culturas agrícolas podem ser impactadas por alterações na adaptação de espécies
que necessitam de conforto térmico, assim como aves e bovinos. A maior
frequência de eventos extremos – como chuvas fortes - poderá alterar o balanço
hídrico e a fisiologia das culturas, causando doenças em plantas. O café, por
exemplo – que não tolera excesso de calor e é muito sensível a geadas – poderia
ser deslocado para o sul do Estado, onde o clima é mais ameno. Outras culturas
seriam prejudicadas, como o feijão e o milho.
"O objetivo do estudo é alertar os tomadores de decisão para a
gravidade dos cenários de modo a induzir investimentos em novas pesquisas e
tecnologias, visando à produção sustentável", observa o pesquisador. Ele
cita como exemplos a manipulação genética e práticas de manejo adequado dos
solos e das águas - como a cobertura e o plantio direto, que evitam a degradação
decorrente da exposição à radiação solar. Outra possibilidade é a integração
entre agricultura, pastagens e florestas, desenvolvendo sistemas agroflorestais
e silvopastoris: "Uma plantação de café poderia ser mesclada a árvores
como seringueiras para equilibrar o ambiente".
Em uma das etapas finais do projeto, a pesquisadora da Unesp
(Universidade Estadual Paulista), Maura Seiko Tsutsui Esperancini, fará uma
análise dos impactos econômicos das mudanças climáticas sobre os setores
agropecuário, florestal e energético do Paraná.
Preocupação global
A Organização Meteorológica Mundial adverte que 2012 foi um dos anos
mais quentes da história desde 1850. O pesquisador Omar Baddour afirma que o
aumento da frequência dos eventos extremos é um sinal de que a mudança climática
não virá só na forma de aumento das temperaturas, mas também como anomalias
intensas e desagradáveis.
As Nações Unidas têm recomendado medidas urgentes para que o aumento da
temperatura global não passe de 2 graus, sob pena de ocorrer um apocalipse
ambiental. No relatório "O Mundo em 2050", a consultoria PwC
(PricewaterhouseCoopers) apresenta sua previsão de que o crescimento da
economia levaria a aumento da temperatura global para 6 graus ou mais no longo
prazo.
O relatório "Riscos Globais 2013" encomendado pelo Fórum
Econômico Mundial, por sua vez, considera as crescentes emissões de gases do
efeito estufa como o terceiro maior risco global. O fracasso da adaptação às
mudanças climáticas é apontado como o risco ambiental que terá o maior impacto na
próxima década. Segundo levantamento da seguradora Munick Re, o custo global de
catástrofes naturais climáticas foi de US$ 160 bilhões (R$ 325 bilhões).
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